A Brasil Game Show começou suas atividades em 2009 e logo se tornou o maior evento do gênero em toda a América Latina . A feira se tornou palco de grandes anúncios, trouxe os melhores jogos de três gerações de videogames e já apresentou ao público os maiores desenvolvedores e estúdios do mercado. Sua importância para o país está para o que foi a E3 na indústria global . Não existia exposição do gênero mais esperada, nem outro que alcançasse a sua grandeza — imbatível, para todos os efeitos. Todos os fãs e grandes companhias aguardavam por outubro, quando o inevitável encontro direto dos dois lados ocorreria. Em 2026, a edição mostrou que seu foco já não é mais o mesmo. Entre loja de panelas e a falta de novidades , assim como uma ocupação desproporcional da praça de alimentação, está claro para todos que a BGS encolheu e as coisas não são mais como antes . Seu nome continua, mas a glória não é mais encontrada. Porém, já pensou que enxergamos toda a situação de uma forma catastrófica demais? A BGS morreu sim , mas apenas a feira que a gente conhece — ela mantém o nome, mas seu objetivo foi alterado e talvez esteja na hora de nós, gamers, aceitarmos que a história mudou em definitivo. O conceito de BGS já é diferente Há 17 anos, o evento foi construído com base nos jogos eletrônicos e o público consumidor. Aquele que descobria no YouTube um lar para ver criadores de conteúdo, que estava prestes a comprar o seu PS4 e XBOX One e experimentar grandes lançamentos como Injustice, FIFA, Call of Duty e outros. Esses fãs acompanharam o fim da geração PS3, XBOX 360 e Wii, viram o fracasso do Wii U, viram a chegada do PlayStation 4, XBOX One e Nintendo Switch, assim como os lançamentos do PS5, XBOX Series e do Switch 2 e seus principais títulos. Neste tempo vimos a Big N ir embora do Brasil e retornar , a gloriosa volta da SEGA, o sumiço repentino da Sony Interactive Entertainment e da Microsoft em feiras deste tipo e diversos outros acontecimentos que marcaram o nosso mercado ao longo dos anos. Após tantas memórias, muitos perceberam as mudanças pontuais como o destaque grandioso para a presença de influencers e YouTubers, assim como a participação de marcas que não conversam com o mercado de games — como estandes da Sadia, Bauducco e outras envolvidas em ramos diferentes da indústria. Em 2026, isso se intensificou de tal forma que eram poucos os estúdios que ganhavam a atenção, pela ausência de diversos outros. SEGA, Nintendo e a Square Enix dominavam entre os gamers , enquanto os demais tentavam chamar o público de outros modos. Não é bem um “A BGS se esqueceu dos gamers!!!”, já que estavam presentes a Devolver Digital , o estande da Monster (um deles, ao menos) estava focado totalmente em Call of Duty: Modern Warfare 4 e sempre dá para se contar com a área de estúdios independentes — que é cada vez mais jogada para trás de tudo. Contudo, o foco não é mais esse. Quem observar bem nota que a Brasil Game Show hoje se tornou um palco para conectar a comunidade com seus criadores de conteúdo favoritos. Basta ver a lista oficial de presenças confirmadas, são mais de 100 influenciadores e personalidades da internet . Não é errado querer conversar com os fãs dessa galera, diga-se de passagem. São milhares de pessoas que acompanham, vibram junto com suas conquistas, veem suas transmissões e todas as ações que publicam nas redes sociais e diferentes plataformas. Porém, podiam assumir logo o interesse em vez de manter a conexão com os gamers. É como iniciar um novo relacionamento enquanto não terminou o anterior. O atual se sente “traído”, enquanto o mais recente — que às vezes não tem culpa disso tudo — é visto como o destruidor de lares e o violador da suposta integridade. Muitas vezes, no fim disso, quem acaba sem nada é quem quis tudo e não se decidiu. Conversamos com alguns jogadores espalhados pelo chão da feira e as reclamações batiam em pontos em comum . “A BGS não é mais a mesma”, “essa edição está mais vazia, né?” e “se tirar Nintendo e SEGA, a Brasil Game Show 2026 não tem nada” foram ouvidos à exaustão e não apenas pela nossa equipe. Ouvimos críticas sobre ter menos atividades , [object Object] e uma constante de “ virou evento de influencer ”. Isso sem mencionar as menções ao foco excessivo em áreas para venda, presença de filas imensas para cada estante e falta de clareza sobre agendamentos in-loco e via aplicativos. Entre pessoas revoltadas com a presença de venda de panelas e a ausência de grandes fabricantes, muitas consideravam que o valor do ingresso não refletia a experiência proposta pela organização da feira. Notoriamente, até a área arcade e espaço com óculos de realidade virtual e simuladores carregou desafios. A visão do público Entre as pessoas presentes na exposição, os objetivos para estarem no local eram variados. Entre os pais e responsáveis, por exemplo, era visto que não queriam introduzir filhos e crianças neste universo — mas sim ter um passeio diferenciado e aproveitar o feriadão. A impressão é que não era “O Evento”, mas sim algo corriqueiro e sem tanta importância. Os cosplayers já tinham uma visão diferente. Alguns que estavam com roupas mais complexas e que exigiam um cuidado maior reclamavam do tratamento com um camarim exposto e a ausência de cuidados como um “Help Cosplay” (com itens de costura para reparar trajes). Já quem visitava com vestes mais simples, alguns que foram trocados de casa ou veículo, acreditaram que a estrutura estava boa — apesar de criticarem a falta de progresso da edição de 2025 para a atual. Uma das entrevistadas até reclamou que “o foco da BGS é vender estande, dane-se quem traz o povo que paga”, em referência à falta de carinho nessa frente. O outro lado da moeda Se, para o público, a BGS 2026 não foi tão agradável, para expositores e marcas a conversa era diferente . Alguns que conversaram conosco destacaram a oportunidade de se aproximar de sua comunidade — com foco em ações e vendas, mas também por terem um espaço para se apresentar devidamente aos fãs. Deste modo, conversamos também com algumas das companhias presentes na Brasil Game Show, assim como influenciadores, que dividiram suas opiniões e experiências ao longo dos últimos anos. Na visão deles, a feira continua a ser o melhor lugar para se conectar ao público. A gerente executiva de marketing da VISA, Mariana Diniz, nos revelou que há muita expectativa da empresa para a BGS e que buscam essa oportunidade para trabalhar junto com parcerias e entregar um conteúdo mais robusto aos visitantes da edição. A própria Team Liquid , por meio da general manager da companhia, Miah Campos, reforça esse ponto de vista e indica que essa proximidade é importante não apenas para a corporação, mas também para os visitantes que estão no local. Na opinião da influenciadora Beatriste, que atua como caster e analista de esports e construiu uma carreira vasta no cenário de Counter-Strike, acredita que a Brasil Game Show ainda tem uma lacuna para se aprimorar, mas hoje ocupa uma parte muito importante dentro da comunidade gamer. Além disso, há reclamações de expositores (antigos e atuais) sobre o valor cobrado para ter um espaço na feira. Nota-se que na edição deste ano, por exemplo, PlayStation, XBOX, Ubisoft e outras grandes não tiveram um estande próprio — assim como a NVIDIA, AMD, Logitech e mais da indústria tech. Ao Canaltech, pessoas próximas da NVIDIA relataram que a companhia decidiu priorizar a sua própria apresentação dos notebooks com RTX Spark nos Estados Unidos. Estar lá e na BGS 2026 seria “dividir a atenção” e optaram por não participar da edição. No entanto, as demais que sempre estavam presentes apenas “sumiram”. Não é novidade para qualquer pessoa que acompanhou a Brasil Game Show nos últimos anos que o evento já não é mais o mesmo. Contudo, é preciso aceitar que o foco da organização hoje é outro: influenciadores, vendas e ativações grandiosas. Os jogos, infelizmente, se tornaram secundários. O brasileiro ainda tem como opção a gamescom latam , que começou em 2024 e segue em direção à sua terceira edição no próximo ano.






