O avanço da inteligência artificial (IA) tem gerado repercussões em diversas áreas, e na matemática não é diferente. Recentemente, a OpenAI, empresa responsável pelo desenvolvimento do ChatGPT, afirmou que obteve a resolução de um dos “Problemas do Milênio”, um conjunto de enigmas complexos criados para desafiar os profissionais dos números.Segundo a empresa, o problema solucionado foi a equação de Navier-Stokes, a qual questiona se o movimento de um fluido tridimensional pode sofrer uma ruptura. Apesar do alarde, o Clay Mathematics Institute, fundação que criou os enigmas, ainda não confirmou se a proposição da máquina está correta. Leia também MundoChinesa resolve problema centenário e ganha “Nobel” da matemática MundoProfessor alemão ganha o “Nobel da Matemática” CiênciaPinturas em cerâmicas indicam primeiros registros de uso da matemática CiênciaMatemática: de Alice no País das Maravilhas à inteligência artificial “Mesmo que esse resultado ainda precise ser analisado e validado pela comunidade científica, ele mostra uma mudança importante: a IA deixa de ocupar apenas o papel de tutora, auxiliando na resolução de problemas já conhecidos, e começa a participar mais ativamente do próprio processo de criação de novas teorias”, destaca o físico atômico e molecular Caio Costa, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB).Na avaliação de especialistas, a IA já é uma realidade no mundo matemático. Apesar de atualmente funcionar mais como uma ferramenta de apoio aos profissionais, futuramente ela poderá substituir uma boa parte do trabalho desenvolvido por humanos na área.“Como na matemática pode ser muito custoso achar a técnica certa para resolver um problema, o impacto que a IA tem é gigantesco. Mas, em segundo lugar, a ferramenta parece estar desenvolvendo uma capacidade cada vez mais autônoma de resolver as equações, e isso tem implicações ainda maiores para a maneira como fazemos a ciência exata”, afirma o pesquisador Paulo Orenstein, do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa).Na atualidade, os humanos ainda são os responsáveis por percorrerm um caminho árduo até chegar à resposta definitiva dos enigmas — o que inclui formular inúmeras hipóteses, modelar, calcular, verificar e interpretar resultados. Com o avanço da tecnologia, a própria máquina poderá realizar esse trabalho.Homem x máquina: como os matemáticos sabem que a IA realmente encontrou a solução?Apesar de ser uma ferramenta que ajuda em muitas áreas, em algumas ocasiões a inteligência artificial ainda não é considerada uma fonte em que se possa confiar de olhos fechados. Isso porque a máquina pode acabar “inventando informações” para trazer o que você quer ler ou a resposta procurada.Por isso, o ideal é que qualquer resolução de enigmas matemáticos por parte da IA seja revisada por humanos. “Existe consenso de que um resultado matemático novo gerado por IA só é importante e significativo quando matemáticos humanos são capazes de entender e apreciar o resultado gerado”, aponta o professor de ciência da computação Rodrigo Barros, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).Os riscos da IA na matemáticaMesmo sendo uma ferramenta utilizada para ajudar, o avanço da IA também pode prejudicar a área. A preocupação tem ligação em especial com o processo que os profissionais realizam até chegar à resposta dos enigmas.Segundo Orenstein, muitas vezes, as falhas na resolução de problemas se ampliam no processo de ensino. “Por vezes, os erros sugerem novas maneiras de adaptar métodos antigos, e às vezes elas apontam para o desenvolvimento de novas ideias”, diz.“Embora a gente ache que a matemática está sempre em busca da “resposta X para um determinado problema”, muitas vezes a melhor pergunta a ser respondida é: “o que pode ser aprendido com o estudo de X?”. Agora, com a IA sendo capaz de responder à primeira questão, o que se percebe é que existe um desincentivo ao processo de pesquisa mais aprofundada sobre o tema”, corrobora Barros, apoiado pelo Instituto Serrapilheira.Assim, com a IA deixando o processo cada vez mais automatizado, o temor é que o interesse pela área caia, uma vez que ser matemático pode passar a ser visto como uma profissão sem função, algo que, segundo Barros, “já está acontecendo”.







