Matheus Leitão

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imagem colorida mostra jhc prefeito de maceió - Metrópoles · Imagem: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Documentos da PF e da Justiça, liberados após a queda do sigilo no STF, mostram que milhões dos servidores de Maceió foram parar no Master

O dinheiro dos aposentados e o ex-prefeito JHC no caso IPREV e Banco Master
O dinheiro dos aposentados e o ex-prefeito JHC no caso IPREV e Banco Master · Imagem: Source: www.metropoles.com

Matheus Leitão

14/09/2026 08:00

Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Entre dezembro de 2023 e maio de 2024, enquanto JHC comandava a Prefeitura de Maceió, o Instituto de Previdência dos Servidores Públicos do município (IPREV) despejou cifras milionárias em Letras Financeiras do Banco Master.

A Justiça fala em R$ 97 milhões, e peças da disputa eleitoral mencionam até R$ 117 milhões. O Master viria a ser liquidado extrajudicialmente, culminando na prisão de seu controlador. O dinheiro do Iprev não era do prefeito nem do banco. Era a poupança previdenciária de milhares de servidores e aposentados da capital alagoana.

A representação da Polícia Federal, hoje nos autos remetidos ao Supremo Tribunal Federal, descreve uma operação cercada de supostas irregularidades. Segundo auditoria da Secretaria de Regime Próprio e Complementar do Ministério da Previdência, os aportes foram feitos em desacordo com a Política Anual de Investimentos do próprio instituto, concentraram cerca de 20% de todo o patrimônio líquido do fundo em um único emissor e careciam de fundamentação técnica nas autorizações de aplicação.

A PF aponta ainda que o Banco Master foi favorecido já em 2023, com R$ 80 milhões, mesmo sem constar de lista de autorização do Ministério da Previdência. O IPREV deixou de credenciar outras instituições financeiras habilitadas, a sessão do Conselho de Administração que aprovou a política de investimentos de 2024 não tinha quórum e os gestores dispunham de elementos suficientes para perceber a falta de solvência do banco.

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A consultoria que assessorava o instituto já havia sido instrumento de esquema análogo investigado na Operação Rebote, e seu diretor tem condenação por _modus operandi_ semelhante. Mesmo assim, seguiu orientando o fundo dos servidores de Maceió.

É aqui que a figura de JHC entra nos autos. Os alvos das medidas cautelares pedidas pela PF, entre elas busca e apreensão, afastamento de função pública e sequestro de bens, são os dirigentes e técnicos do IPREV e da consultoria. Na lista um então diretor-presidente do instituto, colocado no cargo por JHC, como registrou a propaganda eleitoral que originou a disputa judicial, além de um conselheiro do IPREV alçado a secretário municipal de Fazenda e o atual presidente do instituto.

Mas a decisão da 13ª Vara Federal de Alagoas, assinada em 18 de março de 2026, foi além dos subordinados. Ao acolher manifestação do Ministério Público Federal, o magistrado consignou o “possível envolvimento” do então prefeito e registrou que os elementos colhidos indicam que JHC “figura como responsável legal da unidade gestora perante o Ministério da Previdência Social e possui poder direto de nomeação e exoneração da cúpula do IPREV Maceió”. Em outras palavras, o responsável pelo fundo era o prefeito, e era ele quem escolhia e podia demitir, a qualquer momento, os gestores que fizeram as aplicações.

Foi justamente essa posição de JHC, somada ao foro por prerrogativa de função, que levou o juiz a declinar da competência e remeter todo o caso, incluindo o inquérito e as duas representações criminais, ao Supremo Tribunal Federal, para tramitar junto ao chamado Caso Banco Master. O STF terá de dar palavra final sobre o caso, segundo apurou a coluna na corte.

Durante meses esses documentos permaneceram sob sigilo, período em que a coligação de JHC, hoje candidato ao Governo de Alagoas, moveu ações contra o adversário Renan Filho (MDB) e contra ao menos 16 portais de notícias que repercutiram o caso, obtendo remoções de vídeos e reportagens.

O quadro mudou na sexta-feira (11/09), quando o ministro relator do caso no STF levantou o sigilo dos autos. Logo após a quebra do sigilo, que havia confirmado presença no debate da Band entre os candidatos ao governo de Alagoas, não compareceu ao encontro. No sábado (12/09), o TRE-AL ainda concedeu à coligação de JHC 21 inserções de direito de resposta contra a propaganda “Escândalo do Banco Master”, de Renan Filho, sob o argumento de que a investigação não individualizava o ex-prefeito.

Neste domingo (13/09), porém, às 15h26, o próprio relator no TRE-AL suspendeu a veiculação das inserções de JHC. Os documentos tornados públicos, justamente a decisão federal que registra o “possível envolvimento” e a condição de responsável legal, “guardam relação direta” com a premissa da decisão anterior, escreveu o magistrado, remetendo a questão ao Plenário da Corte.

Na prática, a blindagem construída em torno do nome do candidato começou a ruir com a publicidade dos autos. O que antes era tratado como associação “sem suporte factual” agora terá de ser reavaliado à luz do que a própria Justiça escreveu sobre o papel do ex-prefeito.

JHC não é, até aqui, formalmente investigado, mas era o responsável legal pelo fundo perante o Ministério da Previdência, nomeou a cúpula que fez as aplicações hoje sob suspeita de gestão fraudulenta, tinha o poder de exonerá-la a qualquer tempo, e a Justiça Federal registrou seu “possível envolvimento” ao mandar o caso para o Supremo.

Caberá ao STF dizer se essa responsabilidade administrativa e política se converte em responsabilidade penal, valendo, até lá, a presunção de inocência de todos os citados.

O QUE DIZ JHC

Procurado neste domingo (13/09), o candidato JHC afirmou que “não é investigado no caso envolvendo investimentos do Maceió Previdência”. “Os investimentos foram realizados pelo instituto, que possui autonomia administrativa e financeira para gerir os recursos. Em julho, aliás, uma decisão da Justiça determinou a retirada de JHC de ação relacionada ao tema por entender que o ex-prefeito de Maceió não participou nem teve ingerência sobre tais aportes. É preciso informar ainda que qualquer tribunal de Justiça só passa a investigar uma pessoa se provocada pela polícia judiciária ou Ministério Público. A não participação de JHC em sabatina no sábado deve-se ao fato de ele ter assumido compromissos no interior do estado”.