A Associação Beneficente Evangélica (ABE) e três pastores da entidade são investigados pela Polícia Federal (PF) e pela Controladoria-Geral da União (CGU) após suspeitas de que a organização, contratada para gerir creches públicas, servia de fachada para um esquema de desvio de verbas públicas. A entidade sem fins lucrativos foi fundada pela Igreja Evangélica Assembleia de Deus (ADEB) de Brasília, em 1984, e tem 18 filiais no Distrito Federal.Um relatório da PF obtido pelo Metrópoles mostra que a entidade com sede em Samambaia (DF) geriu cerca de R$ 117 milhões repassados por contratos firmados pela Secretaria de Educação do DF durante os anos de 2012 e 2025. A investigação não especificou qual montante está em investigação por suposta utilização da verba de forma irregular. O Ministério Público do DF (MPDFT) e o Tribunal de Contas do DF (TCDF) chegaram a apontar irregularidades na prestação de contas nos anos de 2024 e 2025.A associação também recebeu R$ 850 mil em dois convênio feitos com o Ministério da Cultura (MinC) e o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em 2024. Desta verba destinada para ações de capacitação e projetos culturais, mais de R$ 420 mil teriam sido desviadas para uma papelaria em Taguatinga (DF), segundo o relatório policial.“Pastor talarico” no comando do esquemaA investigação iniciada em maio de 2025, após denúncia anônima, revelou um esquema de corrupção baseada em diretores “laranjas”, empresas de fachada e contratação em massa de parentes dos envolvidos. Formalmente, a associação era liderada pelo pastor Willthimberg Bittencourt da Silva, 51 anos. Segundo os investigadores, o presidente da ONG exercia o papel de “laranja” apenas para assinar documentos e cumprir requisitos legais. O número 1 da entidade chegou a ocupar um cargo comissionado na Secretaria do Entorno, em 2012.No entanto, relatórios comprovaram que a gestão real era exercida de forma oculta pelo pastor e vice-presidente da Assembleia de Deus de Brasília, Manoel Pereira Xavier, 53, e pela esposa dele, Maria Marta Xavier, apontada como diretora financeira e pedagógica da instituição e também como coordenadora de um grupo da igreja. Manoel teria utilizado Willthimberg como co-pastor na igreja que chefiava em Ceilândia Sul (DF).Manoel Xavier esteve no centro de outra polêmica em julho de 2024. Acusado de se envolver com a esposa de um fiel da igreja, ele foi pego no flagra com a “irmã”, enquanto os dois saíam de um motel em Ceilândia. Apesar disso, ele segue casado com a esposa de direito e frequentemente aparecem juntos publicamente.Nas eleições de 2018, Manoel tentou seguir os passos de outro irmão – o mais velho, ex-deputado distrital Carlos Pereira Xavier, 62, acusado de encomendar a morte de um adolescente de 16 anos, ao desconfiar de traição. À época, Manoel se candidatou para o cargo de deputado federal, mas não foi eleito. Ele chegou a ser homenageado pela Câmara dos Deputados no Dia do Evangélico em 2023.6 imagensFechar modal.1 de 6A sede da Associação Beneficente Evangélica, em Samambaia Sul Reprodução2 de 6Contratos firmados com a Secretaria de EducaçãoReprodução3 de 6Contratos firmados com a Secretaria de EducaçãoReprodução4 de 6O pastor Manoel Pereira Xavier e a sua esposa Maria Marta XavierReprodução/Redes sociais5 de 6Papelaria que teria recebido cerca de R$ 420 mil para "dar aulas de música"Reprodução/Google Street View6 de 6Contrato firmado entre a ONG e o Ministério do Trabalho e EmpregoReproduçãoEsquema em famíliaDe acordo com a investigação da PF, filhos, noras e sobrinhas de Manoel e Marta apareciam simultaneamente acumulando cargos na entidade, recebendo salários de convênios federais e comandando as empresas que venciam os processos de contratação.A nora do casal, Poliana Rodrigues Lopes Xavier, era a sócia-administradora da Bras Gel — uma papelaria de Taguatinga que alterou o objeto secundário do contrato para “ensino de música” e abocanhou cerca de R$ 420 mil de verbas federais. O marido dela e filho do casal, Jesimiel Pereira Xavier, também integrou a estrutura como ex-funcionário. Nas apurações, o irmão de Manoel, Orcival Pereira Xavier também é citado fundamentalmente por sua posição de liderança institucional máxima na igreja. Leia também Distrito FederalDark Horse: Pastor da Assembleia de Deus no DF é investigado pela PF Tácio LorranDark Horse: entidade de igrejas e pastores recebeu R$ 928 mil em espécie A teia contava com o apoio do pastor da Assembleia de Deus Ademar de Sena Sampaio, que acumula os papéis de 1º tesoureiro da igreja, contador e prestador de serviços por meio de sua empresa de contabilidade. Assessor comissionado no gabinete do deputado Iolando (MDB-DF), o pastor é um dos alvos da operação que mira produtores do filme Dark Horse.A rede se estendia a sobrinhas, como Talyta Xavier Porto Almeida, e outras funcionárias cujos familiares, como filhas, também figuravam como beneficiários de pagamentos diretos dos convênios, além de assessores como Heliton Felipe Pereira Nunes, que operava múltiplos perfis de controle nos sistemas federais de repasse.No total, 12 pessoas são investigadas por fazerem parte do esquema.Quem são os membros do esquemaManoel Pereira Xavier (gestor oculto): apontado como líder da ONG nos bastidores e suspeito de usar da influência religiosa para direcionar o esquema;Maria Marta Xavier (esposa de Manoel /diretora financeira e pedagógica): além de acumular cargos, é acusado de ordenar pagamentos e liberações de recursos nos sistemas federais, além de figurar como beneficiária direta de repasses de R$ 96 mil enviados diretos à sua conta pessoal;Willthimberg Bittencourt da Silva (presidente formal e diretor executivo da ABE): é acusado de emprestou o nome para assumir a presidência de fachada da ONG, encobrindo o comando real do casal.Ademar de Sena Sampaio (1º tesoureiro da ADEB / contador responsável pela Upcon Contabilidade): suspeito de usar sua estrutura contábil e sua função na igreja para articular e operacionalizar as fraudes financeiras;Poliana Rodrigues Lopes Xavier (nora de Manoel e Maria Marta /sócia-administradora da Bras Gel): teria usado sua empresa de fachada para emitir notas e abocanhar verbas federais de convênios sem prestar o serviço devidamente.Jesimiel Pereira Xavier (filho de Manoel e Maria Marta / marido de Poliana e ex-funcionário): segundo a investigação, teria integrado o núcleo familiar que blindava o esquema e dava suporte às operações da associação.Heliton Felipe Pereira Nunes (prestador de serviços terceirizado): de acordo com o relatório, ele controlou múltiplos acessos ilegais no sistema federal de convênios (Transferegov) para burlar os fluxos de controle;Talyta Xavier Porto Almeida (sobrinha de Manoel Xavier / contratada da associação): foi inserida na folha de pagamentos para receber recursos públicos de forma irregular, beneficiando-se do esquema familiar.Tamara Nogueira de Carvalho de Jesus (funcionária contratada da ABE): participou do esquema de repasses e contratações direcionadas no âmbito dos convênios;Tais Ester de Jesus Carvalho Goveia (filha de Tamara / beneficiária de recursos): foi inserida na folha de pagamentos para receber valores indevidos dos convênios.Aldivan Rodrigues do Nascimento (diretor formal da ABE): assinou formalmente em cargos diretivos, emprestando seu nome para legitimar a gestão controlada pelo clã.Orcival Pereira Xavier (irmão de Manoel Xavier / Presidente da Assembleia de Deus de Brasília – ADEB): teve seu nome citado por liderar a cúpula da igreja que abrigava institucionalmente a rede de influência usada para sustentar a ONG.Fraudes trabalhistasAlém das fraudes contratuais e do superfaturamento de itens, como gastos desproporcionais com combustíveis e alta movimentação de dinheiro vivo, o relatório policial apontou indícios de fraudes trabalhistas — com demissões e recontratações em massa no final de cada ano para burlar o pagamento de encargos e direitos de funcionários.As investigações apuram crimes de nepotismo e contratações cruzadas, divergências salariais injustificadas, movimentação atípica em espécie e acumulação irregular de funções e remunerações.Apesar de ter recebido mais de R$ 117 milhões, a entidade acumulou entre 2018 e 2023 dívida ativa na União de R$ 9.570.478,03 . A organização responde também diversos processos na esfera trabalhista.O inquérito da Polícia Federal segue em andamento com quebras de sigilo, relatórios de inteligência financeira e diligências da PF e da CGU. Em julho deste ano, a PF iniciou a fase de oitiva das testemunhas e caso comprovados os crimes, o Ministério Público Federal (MPF) oferece a denúncia e, se aceita, o caso será julgado pela Justiça Federal de Brasília.O outro ladoO Metrópoles procurou os acusados de fazerem parte do esquema, mas as defesas de Willthimberg, Heliton Felipe Pereira e de Aldivan Rodrigues do Nascimento não foram encontradas. Ao entrar em contato com telefone cadastrado por Willthimberg em um contrato firmado com o MTE, a reportagem se deparou com um homem identificado como Felipe que diz estar ciente que o número de telefone dele estaria no documento. A autorização teria se dado após um “serviço prestado” para o dono da ONG.A Secretaria de Educação do DF informou que acompanha e apura, no âmbito das prestações de contas das parcerias firmadas, as questões relacionadas aos recursos públicos e a execução dos instrumentos celebrados. “A pasta analisa os relatórios financeiros e a documentação apresentada pela instituição, observando os procedimentos de acompanhamento e prestação de contas previstos na legislação. Eventuais inconsistências identificadas no curso das análises serão tratadas pelos canais e procedimentos administrativos competentes”, disse a pasta.Em nota, o MTE disse que não foi comunicado oficialmente sobre a investigação. “O MTE realiza o acompanhamento e o monitoramento contínuo da execução dos instrumentos de parceria financiados com recursos oriundos de emendas parlamentares, com o objetivo de assegurar a correta aplicação dos recursos públicos e o cumprimento das finalidades previstas em cada ação”.“Ressalta-se que, caso sejam identificados indícios de irregularidades, o ministério adotará as medidas cabíveis, no âmbito de suas competências legais e administrativas, em articulação com os órgãos de controle competentes, visando à proteção do interesse público e à adequada gestão dos recursos públicos”, citou o documento.O MinC, também em nota, disse que foram identificados dois instrumentos firmados com a ABE, referentes a emendas parlamentares, ambas destinadas à realização de oficinas de instrumentos musicais para adolescentes e jovens de 12 a 29 anos no Distrito Federal.“Não houve solicitação formal de esclarecimentos ao Ministério da Cultura por parte da Polícia Federal ou de outros órgãos de controle relacionada aos processos mencionados. Em relação ao instrumento de 2023, – que ficou vigente até fevereiro de 2025 –, a prestação de contas foi apresentada e o ministério irá realizar a análise, conforme os procedimentos previstos na legislação”, disse.














