Esterline Gonçalves Género, Embaixador

Por razões profissionais, hoje, 16 de setembro, tive a oportunidade de passar duas horas e meia na sede da KAICIID – Centro Internacional para o Diálogo, em Lisboa, numa discussão particularmente enriquecedora sobre o diálogo. Saí de lá com uma reflexão que considero cada vez mais urgente: estamos a perder a capacidade de escutar antes de julgar e de conhecer antes de condenar.

Vivemos numa era em que uma imagem, um vídeo ou uma narrativa bem construída podem transformar alguém em vilão ou em vítima num instante. Nas redes sociais, há sempre um tribunal de serviço, com juízes improvisados, prontos a ditar sentenças ao primeiro relato: «Já vi o suficiente. Não preciso de mais provas».

E assim, muitas vezes, a perceção ocupa o lugar dos factos, a indignação substitui a reflexão e a informação negativa percorre o mundo muito antes de qualquer esclarecimento. Diabolizamos pessoas, alimentamos o ódio e esquecemos que, por detrás de cada episódio, existem circunstâncias que uma gravação de poucos segundos pode não revelar.

O que aconteceu na Embaixada de São Tomé e Príncipe, em Lisboa, na segunda-feira, 14 de setembro, é um exemplo que merece reflexão.

O vídeo divulgado, não autorizado, tornou-se viral e desencadeou inúmeros comentários, incluindo de pessoas que reconheço como idóneas. Contudo, muitos juízos foram formulados a partir de uma única versão dos acontecimentos.

Importa, por isso, acrescentar elementos de contexto. Segundo os registos de que disponho, a Embaixada abriu às 8h30 e não há registo da presença do autor do vídeo nas suas imediações antes das 8h40, hora a que acedeu às instalações. Apesar de não ter marcação, foi-lhe permitida, pelo chefe da portaria, uma audiência com o responsável consular para obter informações.

O episódio ocorreu no gabinete deste responsável. A colaboradora que aparece nas imagens é chefe de serviço e, naquela manhã, trabalhava sozinha, assegurando funções em três gabinetes — 5, 6 e 7! Entrou no gabinete de um colega para o saudar e solicitar um parecer. O outro colaborador visado nas críticas trabalha diretamente com o responsável consular.

A reação da minha colaboradora pode ser discutida e compreendo que algumas pessoas a critiquem. Mas será justo avaliá-la sem conhecer o contexto, as circunstâncias e o comportamento que antecedeu aquele momento? Será que uma imagem permite, por si só, conhecer toda a história?

Não pretendo que estas explicações impeçam a reflexão ou a crítica. Pretendo, sim, que a crítica seja acompanhada de contexto, equilíbrio e responsabilidade. Preocupa-me particularmente que alguns comentários tenham ultrapassado os limites da discordância, chegando à incitação à violência e a associações políticas sem fundamento demonstrado.

Aos que comentaram, partilharam ou condenaram, deixo um apelo: reconsideremos sempre que novos factos nos convidem a fazê-lo. Ter a humildade de rever uma opinião não é sinal de fraqueza; é sinal de maturidade.
À nossa comunidade, peço também compreensão e colaboração. Estamos empenhados em melhorar o atendimento, muitas vezes enfrentando limitações e assegurando serviços com recursos humanos reduzidos. Temos consciência de que há sempre espaço para melhorar, mas também esperamos que os esforços de quem diariamente procura servir sejam reconhecidos e que as dificuldades sejam enfrentadas com diálogo construtivo.
Um vídeo pode incendiar uma multidão, mas não deve substituir a verdade. Antes de partilhar, procuremos compreender. Antes de condenar, escutemos. E, acima de tudo, não permitamos que a pressa de julgar nos roube a capacidade de sermos justos.
Porque todo o espetáculo tem um fim. A cortina fecha-se, as luzes apagam-se e a plateia acaba por ir embora. Mas as consequências de uma sentença precipitada podem permanecer muito depois de todos terem saído.
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