🌿 De solução alimentar a pesadelo ecológico

Uma árvore levada ao Havaí para matar a fome de colonos hoje cobre quase meio milhão de hectares de floresta tropical. E a resposta encontrada pelos cientistas vem de cima. ⬇️

Nem toda ideia agrícola do século XIX envelheceu bem. Colonos plantaram o araçá no Havaí como fonte extra de alimento e, duzentos anos depois, a árvore brasileira domina florestas inteiras do arquipélago. Uma equipe de cientistas dos Estados Unidos encontrou uma resposta pouco convencional para conter o avanço: soltar insetos aliados direto do céu.

Como o araçá brasileiro se tornou um problema no Havaí?

A árvore chegou ao arquipélago em 1825, trazida do Brasil para reforçar a alimentação da população local. Sem predadores naturais na ilha, o araçazeiro se espalhou por vales e encostas inteiras, formando densos maciços fechados. Hoje a planta altera a estrutura da floresta tropical, reduz a diversidade do sub-bosque e empurra espécies nativas para fora do próprio território delas.

Inseto brasileiro ajuda cientistas a combater o avanço do araçá no Havaí - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Qual inseto os cientistas usam para conter o araçá?

O agente escolhido é o Tectococcus ovatus, um inseto originário do Brasil que forma pequenas galhas nas folhas da árvore. Ele se alimenta exclusivamente dessa planta e não ataca espécies vizinhas, o que reduziu bastante o risco de efeitos colaterais no ecossistema. As autoridades havaianas aprovaram sua introdução em 2012, depois de anos de testes, como forma de controle biológico específico contra o araçá.

O inseto age de um jeito simples depois de instalado numa árvore. Basta observar o que acontece assim que ele chega às folhas:

- Vive dentro de pequenas bolhas nas folhas, chamadas de galhas

- Se multiplica sozinho e se espalha pela copa sem ajuda humana

- Ataca só o araçá, sem prejudicar plantas nativas do entorno

Espalhar esse inseto a pé, porém, exige caminhadas longas por trilhas estreitas. Boa parte da floresta invadida simplesmente fica fora de alcance para quem trabalha só com as próprias pernas.

📊 Chão x ar: o que os testes mostraram

⏱️ Tempo por árvore

Drone: 2,8 minutos · Método manual: 12 minutos

🎯 Precisão do lançamento

Pértiga manual: 97,6% · Drone pequeno: 86,6%

📈 Sucesso após 12 meses

Drone: 63% das árvores colonizadas · Pértiga: 38%

Fonte: Perroy et al., Journal of Economic Entomology (2025)

Por que os drones superam o método manual nos testes?

Um sistema de quatro unidades montado num drone reduziu o tempo de tratamento em 77% frente ao método manual. Cada árvore levou cerca de 2,8 minutos pelo ar, contra 12 minutos no chão. Doze meses depois, 63% das árvores tratadas por drone estavam colonizadas com sucesso, ante 38% das tratadas com a pértiga.

Como funciona a nova geração de drones maiores?

Pesquisadores dos Estados Unidos testaram versões maiores, com 16 e 54 unidades, batizadas de Kūhualūlū, além do lançamento manual a partir de um helicóptero Hughes 500. A ideia era simular uma operação em escala real, cobrindo trechos amplos da floresta em pouco tempo de voo. A comparação buscou medir a precisão de cada método em pontos determinados da copa das árvores.

Os números mostram uma diferença clara de precisão entre as opções testadas. Veja como cada estratégia se comportou nos ensaios de campo:

- O Kūhualūlū acertou o alvo em 71,6% das tentativas

- O helicóptero acertou 68% das tentativas no mesmo teste

- A distância máxima do alvo foi de 2,83 metros com o drone, contra 8,24 metros do helicóptero

Para cobrir as 475 mil hectares de araçá espalhadas pelo Havaí, os pesquisadores calculam que seriam necessários 4.750 lançamentos e cerca de 92,5 horas de voo de helicóptero. O estudo, publicado na Journal of Economic Entomology, reforça que o método aéreo é a única alternativa viável para áreas remotas sem trilhas.

Drones vão resolver o problema das árvores invasoras no Havaí?

Os resultados mostram que o ar oferece uma vantagem real sobre o chão, sobretudo em regiões sem estradas ou trilhas abertas. Ainda assim, o araçá segue firme em boa parte do arquipélago, e a disputa contra a planta brasileira promete continuar por muitos anos. E você, já parou pra pensar como uma árvore comum por aqui pode virar dor de cabeça do outro lado do mundo?